Geórgia e Armênia: diário de viagem independente (2.ª parte)
Continuamos o relato de Luis e Pilar pelas terras do Cáucaso. Se ainda não leu o início, convidamos a descobrir a primeira parte do diário de viagem à Geórgia e Armênia.
Dia 7: De Sighnaghi a Gori — Rastros de Stalin
O dia amanhece esplêndido. Tomamos café da manhã junto à sacada onde estão secando vários presuntos, paletas, lombos e pancetas, e depois saímos para dar uma volta. Em Sighnaghi muito se investiu para criar a sensação — um pouco artificial — de cidade medieval bem restaurada e conservada: há ruas pedestres de paralelepípedos e os edifícios do centro estão impecáveis, embora fora das muralhas abundem as habitações precárias. Há até uma coleção de originais esculturas metálicas espalhadas pelas praças.
Apesar do calor, animamo-nos a sair caminhando até o convento de Bodbe, a uns 3 km. Aqui está enterrada Santa Nino e a comunidade que o ocupa é de freiras. Chegamos no final de uma cerimônia muito concorrida: as freiras cantam e há muitas mulheres que entram e saem de tempos em tempos para descansar, já que a cerimônia durou várias horas.
Quando o ambiente se acalma um pouco, entramos para ver o sepulcro, muito simples, e as pinturas do século XIX que adornam as paredes. Nos arredores há uma fonte considerada milagrosa, mas não temos vontade de subir até ela e além disso estamos um pouco com pressa. Aproveitamos um táxi ocioso na entrada para voltar à cidade e buscar nossa bagagem na casa de Zandarashvili. O avô nos leva à praça onde param as marshrutkas na esperança de recrutar novos clientes. Nos despedimos dele e compramos passagem para Tbilisi (12 GEL).
Na terminal Didube de Tbilisi damos várias voltas pelas ruas até encontrar um ônibus que nos leve a Gori. É preciso comprar bilhete na janela, mas em poucos minutos o ônibus lota e partimos. Em 2 horas chegamos à terra natal de Stalin e sabemos onde descer porque nem todas as cidades de 50.000 habitantes têm uma avenida tão desproporcional quanto a Stalinis Gamziri.
Gori é uma espécie de fantasia arquitetônica moldada para a maior glória do grande ditador soviético. Toda a grandiosidade se concentra em uma avenida de vários quilômetros em que se alinham imensos edifícios oficiais: museu, prefeitura, bancos e outros equipamentos. O restante da cidade consiste em bairros degradados de casinhas em ruínas e uma colina que abriga uma fortaleza antiga sem muito interesse.
Hospedagem e gastronomia em Gori
O Intourist nos intimida um pouco por fora, então optamos pelo Hotel Victoria, perto da extremidade sul da avenida, antes da ponte que cruza o rio Mtkvari. Temos dificuldade em encontrá-lo porque não há indicações fora do bulevar e as pessoas não entendem muito o que lhes perguntamos. O hotel está vazio e, como boa criação soviética, tem algo de sombrio, mas em geral não está mal. Nos custa 80 GEL sem café da manhã [VERIFICAR].
Para jantar há várias opções e nos decidimos por um restaurante decorado em estilo rústico, com muitas peças de caça empalhadas. Ao entrar contemplamos uma cena à qual já nos vamos acostumando: um cliente tenta se levantar e não consegue porque as pernas não o sustentam; seu amigo tenta ajudá-lo mas, como também está muito "acabado", não consegue arrastá-lo. No final intervém o garçom, que a duras penas consegue colocar ambos na rua.
Mal nos sentamos ficamos um pouco irritados com as atendentes porque nos dizem que não há vinho a granel — se vemos alguns clientes bebendo é porque trouxeram eles mesmos. No final escolhemos um vinho engarrafado que custa 15 GEL e o jantar é aceitável. Insistimos em dar um passeio noturno, sopra um vento gelado e os bares que ficam abertos na deserta avenida são como oásis inóspitos. Recolhemo-nos cedo.
Dia 8: De Gori a Borjomi — O Museu de Stalin e águas termais
O dia amanhece chuvoso de novo. Tomamos café turco e khachapuri em um local do bulevar decorado como um velho vagão de trem e em seguida nos dirigimos ao museu, que segundo o guia é o mais interessante de toda a Geórgia. O Museu de Stalin (15 GEL, visita guiada incluída) foi inaugurado em 1957, quatro anos após a morte do líder. Enquanto Khrushchev se esforçava em erradicar o legado político do stalinismo, paralelamente favorecia-se o culto à personalidade do ditador, mas limitado à sua cidade natal.
O museu é um vasto edifício de dois andares com uma torre, grades e jardins, facilmente reconhecível pelo exterior pela estátua em tamanho natural que há diante da entrada. A exposição percorre toda a história de Stalin e do comunismo soviético ignorando os aspectos mais espinhosos; é interessante para qualquer visitante curioso sobre história, embora a maior parte dos textos explicativos não esteja em inglês. Nos jardins conservam-se a casa de madeira e tijolos onde Stalin nasceu e o vagão de trem blindado que costumava usar para viajar pela URSS. Ao sair passamos pela loja e compramos vários exemplares de sua Obra Poética Completa, um volume do tamanho de um caderno com muito poucas páginas, cada poema em três idiomas: georgiano, russo e inglês.
Depois de ver o museu vamos à estação e embarcamos em uma marshrutka com destino a Borjomi. Desistimos de ir a Uplistsikhe porque as descrições do lugar não nos seduzem; reservamo-nos para visitar mais adiante as cavernas de Vardzia. Passada a encruzilhada de Khashuri, entramos em uma magnífica paisagem de montanhas arborizadas, rios e aldeias.
Borjomi foi um dos balneários favoritos da aristocracia nos tempos dos czares e durante a era soviética continuou sendo muito popular. A água carbonatada natural que brota de sua famosa fonte era exportada para todas as repúblicas da URSS e atualmente continua sendo encontrada por toda a Geórgia — nós também gostamos muito. Saímos para ver o que resta do antigo balneário e enchemos garrafinhas na fonte, igualmente boa quanto a engarrafada, mas em alta temperatura.
O esplêndido parque foi transformado em uma espécie de parque de diversões, pouco frequentado nessa época do ano. Chegamos ao final e continuamos caminhando por uma bela trilha que sobe suavemente em direção às florestas; a temperatura é agradável e desfrutamos dos altos abetos e bétulas, vemos muitos cogumelos e plantas com flores e vadeamos um par de riachos. No final nos deparamos com um rio largo demais e temos que voltar à cidade.
Há uma espécie de vigília em torno de uma igreja, no meio do parque fluvial; muita gente está reunida do lado de fora portando castiçais com velas acesas. Deve ser sua maneira de celebrar a Quinta-feira Santa e nos surpreende encontrar muitos jovens, com uma atitude muito alegre sem prejuízo da solenidade do momento.
A devoção cristã é um fenômeno social na Geórgia que se estende a todas as camadas da população: garotas jovíssimas que não hesitam em cobrir a cabeça com lenços para ir de igreja em igreja rezando e acendendo velas a seus ícones favoritos, homens corpulentos que talvez tenham sido soldados ou caminhoneiros mostrando as tatuagens ao se persignar diante de cada mosteiro…
Por perto me chama a atenção outra curiosidade: na estação ferroviária chegam apenas dois trens por dia da capital, mas no saguão ainda pode ser vista uma tabela de horários escrita em russo com mais de cem cidades das quais em outra época chegavam trens, entre elas muitas tão distantes quanto Riga ou Alma-Ata.
Hospedagem e gastronomia em Borjomi
Depois de consultar o responsável do posto de turismo, optamos pelo Hotel Borjomi (50 GEL com café da manhã) [VERIFICAR]. É uma casa de madeira pintada em cores pastel, no estilo do século XIX; os quartos são pequenos e simples e o café da manhã normal. Para o almoço e o jantar começamos frequentando a Taverna Nia: uma casa de madeira com sacadas sobre o rio que talvez no verão seja muito agradável, mas nesta época sua vasta sala de jantar fica fria e úmida.
A comida não está mal e à noite coincidimos com uns espanhóis que já encontramos no hotel de Tbilisi e bebemos juntos algumas cervejas. Na noite seguinte exploramos um pouco mais e descobrimos um pequeno restaurante familiar que serve refeições muito simples e um vinho excelente em cálices de cristal de estilo vanguardista.
Dia 9: Borjomi — Vardzia — Borjomi — Cavernas e fortalezas do sul
Pegamos uma marshrutka para ir a Akhaltsikhe (4 GEL) [VERIFICAR] e lá contratamos um táxi para nos levar a as cavernas de Vardzia e outros pontos de interesse.
Hoje não chove, mas está nublado e os perfis das montanhas se confundem com o céu cinza; quando chegamos às cavernas mal as distinguimos na encosta do monte. Vardzia é outro lugar emblemático para a cultura georgiana e talvez mais na conjuntura política atual, pois percebemos que muitos habitantes de Javakheti, a região em que nos encontramos, são armênios e desejariam se integrar ao país vizinho.
Pagamos a entrada (atualmente 15 GEL) antes de subir a pé a longa rampa que leva até a extremidade do alinhamento de cavernas. Vardzia foi concebida como construção defensiva pelos reis georgianos do século XII e mais tarde a rainha Tamar ampliou suas instalações com um mosteiro composto de inúmeras cavernas dispostas em 13 níveis, que chegou a abrigar mais de 2.000 monges. Mais tarde sofreu um terremoto que derrubou as muralhas externas e ficou indefesa frente às invasões; a última — dos persas no século XVI — deixou o lugar deserto até que há alguns anos se instalou uma pequena comunidade de monges.
O local impressiona por seu tamanho (mais de 500 cavernas escavadas com centenas de aposentos diferentes) e pelas magníficas vistas que podemos apreciar quando finalmente o sol aparece. Uma igreja que ocupa o centro da encosta conserva todos os seus elementos arquitetônicos e pinturas originais, além de um conjunto de passagens estreitas muito divertidas para os mais curiosos.
No caminho de volta paramos para ver a fortaleza de Khertvisi, suspensa no alto da colina que domina a entrada de um vale. Na sua origem há uma lenda segundo a qual a rainha Tamar convocou uma espécie de concurso entre os arquitetos do país para ver quem erguia a melhor torre de pedra. O mestre mais famoso foi vencido por um simples aprendiz e, tomado de raiva, saltou do alto de sua torre. Atualmente o castelo está praticamente reconstruído e é muito vistoso no meio da bucólica paisagem.
Antes de voltar a Akhaltsikhe, tomamos uma estrada estreita que sobe por uns 10 km através de uma paisagem impressionante, com as montanhas do Cáucaso ao fundo, para terminar no mosteiro de Sapara. Este complexo tem origem no século IX e, além de ocupar uma situação de tirar o fôlego no alto de um desfiladeiro, suas seis igrejas estão incrivelmente bem conservadas. Em uma delas, a de São Saba, podem ser vistos os que provavelmente sejam os melhores afrescos medievais da Geórgia, datados do século XIV.
Quando chegamos a Borjomi, já de noite, começa a chover torrencialmente de novo.
Dia 10: De Borjomi a Kutaisi — Catedrais e mosteiros do oeste
Continua chovendo, então desistimos de fazer uma excursão pelo vizinho Parque Nacional de Borjomi-Kharagauli e saímos cedo em direção a Kutaisi. A primeira marshrutka nos leva até a encruzilhada de Khashuri, onde um policial nos indica o lugar onde param as vans que vão para o oeste e nos preparamos para esperar. Mas hoje é Domingo de Páscoa e resulta ser o dia mais importante da Pásqua ortodoxa.
Mais tarde veremos como os georgianos saem em massa em direção aos seus lugares de origem para cumprir o rito de visitar os túmulos de seus antepassados. Os cemitérios costumam ser amplos e cada túmulo dispõe de um espaço próprio, delimitado por uma grade; é lá que cada família se instala para comer e beber, levando sempre os típicos ovos de Páscoa tingidos de cores.
Todas as marshrutkas passam por Khashuri lotadas. O povo vai se acumulando na parada e vemos difícil continuar viagem. Quando já estamos pensando em contratar um táxi acontece algo curioso: a dois passos de onde estamos parou a van de um fruteiro; o motorista entra em algum lugar e ao voltar se dirige a nós, nos convidando a embarcar. O restante dos viajantes protesta, mas por algum motivo o sujeito escolheu levar estrangeiros e só pode levar duas pessoas. Partimos — ele vai para Batumi, no litoral do Mar Negro — e tentamos nos comunicar com gestos e algumas palavras em russo.
Passamos por um passo de montanha com bastante neve e na descida paramos em uma feira permanente onde se vendem todo tipo de louças de barro. A estrada tem às vezes muito tráfego, especialmente caminhões turcos que entram ou saem da Geórgia carregados de mercadorias. Mesmo assim chegamos a Kutaisi em menos de 3 horas.
Nos despedimos do simpático transportador e lhe damos 20 GEL por ter nos tirado da encrenca, mas um taxista nos engana e nos cobra 10 GEL para nos levar ao hotel (com 5 GEL teria sido mais do que suficiente).
Depois de nos instalarmos subimos pelo bairro antigo até a colina que abriga o monumento mais famoso de Kutaisi: a antiga catedral de Bagrati. No caminho passamos por uma feira de flores e outras coisas típicas da Páscoa, mas quase não há compradores porque todo mundo ainda está nos cemitérios.
Kutaisi foi capital de um reino durante séculos e sua catedral era grandiosa, assim como o palácio-fortaleza que ocupava a mesma colina. Ambos foram destruídos por diferentes catástrofes no século XVIII. Hoje a catedral foi amplamente restaurada (um processo que gerou polêmica e lhe custou a perda de seu status como Patrimônio da Humanidade da UNESCO em seu momento), mas conserva um inegável magnetismo.
Para aproveitar a tarde contratamos um táxi (12 GEL) [VERIFICAR] e vamos ver dois mosteiros próximos muito melhor conservados: Gelati e Motsameta. Gelati foi outra das academias filosóficas fundadas na Idade Média e alguns dos reis mais famosos estão enterrados em suas igrejas.
Motsameta ocupa uma localização verdadeiramente espetacular no alto de uma colina que domina o meandro do rio Tskhaltsitela; a passagem até a pequena igreja é muito estreita e difícil de fotografar, mas a visita certamente vale a pena. O nome do rio significa "água vermelha" e tem origem em uma lenda: os duques de Argveti eram dois irmãos que governavam a região por volta do século VIII, época da invasão árabe. Os invasores assassinaram a todos e aos duques jogaram no rio, mas leões recolheram seus corpos e os trouxeram de volta à colina, por isso construíram uma igreja ali para dar-lhes sepultura. Seu túmulo foi objeto de especial devoção durante séculos e em 1923 a Cheka tentou confiscá-lo e transferi-lo para Kutaisi, mas — segundo conta a tradição — os ossos de ambos os mártires voltaram milagrosamente ao ponto de partida. Ainda hoje muitos fiéis visitam a igreja para cumprir o rito de passar de joelhos por baixo do estreito sepulcro.
Hospedagem e gastronomia em Kutaisi
Nos tinham recomendado o recém-inaugurado Hotel Old Town, um lugar elegante e com quartos bem equipados para o habitual na Geórgia, mas também bastante caro. Nos deram o quarto mais caro (90 USD com café da manhã) [VERIFICAR], o que inicialmente nos aborreceu.
Quanto a restaurantes, tivemos a impressão de que escasseavam e de qualquer modo não encontramos nenhum aberto. A Páscoa ortodoxa se celebra em Kutaisi à maneira da Semana Santa na Espanha dos anos 50 e praticamente tudo estava fechado. Nos contentamos em comprar queijo, frios, pãozinhos e cerveja em uma loja e comer no quarto.
Dia 11: De Kutaisi a Mestia — Rumo à mítica Svaneti
Deixamos Kutaisi como a encontramos: com as ruas vazias. Uma marshrutka nos leva em cerca de 2 horas a Zugdidi (7 GEL) [VERIFICAR], de onde esperamos continuar viagem para a mítica região montanhosa de Svaneti. O transporte até esse lugarejo é escasso; só há um par de saídas diárias em vans que os habitantes também usam para transportar mercadorias.
Perguntamos na cabine e nos dizem que a marshrutka da tarde sairá às 15h. Como ainda não é meio-dia aproveitamos para dar uma volta, deixando as malas sem qualquer preocupação; temos certeza de que ao voltar nossa bagagem ainda estará lá.
Para ser uma cidade de segundo plano, Zugdidi resulta ser muito mais bem equipada e animada do que Kutaisi: há um mercado coberto muito interessante e vários cybercafés abertos. Também nos surpreende encontrar um bulevar decorado com mosaicos que representam grandes bandeiras georgianas com as cinco cruzes de São Jorge. Este bulevar leva o nome de Zviad Gamsakhurdia, o controverso presidente que proclamou a independência do país em 1989 e que mais tarde se tornaria um golpista. Zugdidi era seu feudo particular e a cidade reivindica sua memória.
De qualquer forma, o mais estranho é que segundo o guia essa cidade conta com um dos melhores restaurantes do país, o Diaroni. Temos curiosidade para confirmar o dado e ele se mostra correto: comemos muito bem e o serviço é excelente.
De volta à estação de marshrutkas reparamos em uma réplica das torres defensivas de estilo svan, que em breve veremos em abundância. A van parte pouco antes das 15h, mas apenas para percorrer algumas centenas de metros e entrar no pátio de um armazém. Começa uma tediosa espera durante a qual o motorista, ajudado por um par de passageiros, se esforça em acomodar uma carga composta de muitas caixas de tomates, sacos e pertences dos mais diversos.
Quando parece que conseguiram, continuamos esperando até que chega outro viajante com uma boa pilha de caixas de ovos. Por fim saímos para a estrada e pagamos os 20 GEL por pessoa [VERIFICAR]; já são quatro e meia e sabemos que o caminho até Mestia, a aldeia que faz as funções de capital comarcal de Svaneti, é bastante longo por causa das más condições da estrada. Além do motorista e de nós dois viajam cinco svans corpulentos e uma jovem turista israelense. Logo a estrada abandona o fértil vale e começa a subir paralela ao rio até as imediações de um grande reservatório; ao longe vemos cumes cobertos de neve.
Paramos novamente hora e meia depois junto a uma espécie de bar de beira de estrada de estilo hiper-rústico. Acontece que não paramos apenas para usar o banheiro: os svans têm intenção de celebrar uma sessão de verdade. Nos misturamos com eles ocupando uma mesa grande e em pouco tempo nos servem vários kubdari (tortas de farinha com carne assadas no forno) cortados em fatias e um par de jarras de vinho de dois litros. Nos distribuem copos e o tamada começa a exercer suas funções ordenando enchê-los e pronunciando longos e complicados brindes.
Nós, como a moça israelense, tentamos pular vários copos, e não apenas por medo de acabar em coma alcoólico, mas também porque o vinho é um tanto ruim. O motorista anuncia sua retirada depois de esvaziar seis copos, mas o restante continua firme. Quando nos levantamos passaram quase duas horas e já demos conta de cinco jarras grandes de vinho, claro de cor mas turvo em tudo mais.
Continuamos viagem nos aproximando do crepúsculo. Enquanto dura a luz vemos uma paisagem de alta montanha cada vez mais impressionante, com grandes cordilheiras em todas as direções. Em uma das aldeias desce o homenzinho calvo que exerceu de tamada e os outros nos dizem com ironia que é um policial. Chegamos a Mestia às 22h, mas tivemos a precaução de ligar para uma casa de hóspedes; nos deixam na porta e encontramos o jantar servido e os quartos preparados.
Hospedagem e gastronomia em Svaneti
Na casa de Nino pagaremos 40 GEL por pessoa e dia em pensão completa [VERIFICAR], algo que nos parece um pouco caro mas também não vamos ficar tempo suficiente para comparar. A comida está bem: há pouca carne mas à noite fazem sopa, e as saladas e pratos frios variados estão disponíveis o dia todo. Não incluem vinho nem cerveja mas nos vendem garrafas de vinho bastante bom por 8 GEL [VERIFICAR].
Com o quarto temos menos sorte porque a casa de Nino está lotada e nos mandam para a da vizinha da frente: quartos grandes e despojados com uma cama bastante desgastada, cobertores puídos e nada mais. Dispomos de um pequeno aquecedor elétrico que nos aquece na primeira noite, mas de manhã o filamento queima e não funciona mais até partirmos.
Dia 12: Svaneti — Trekking ao glaciar Chalaadi
No café da manhã nos encontramos com vários turistas israelenses que já conhecemos de etapas anteriores, além de um italiano residente na Rússia e um grupo formado por um esloveno, um português e uma moça russa da Letônia; viajam juntos porque os três moram na Holanda e trabalham na mesma empresa.
Há outro casal de israelenses que junto com o italiano planejam fazer uma excursão montanha acima até o glaciar Chalaadi; me junto a eles e nos abastecemos de comida e água para passar o dia. Ao sair da casa percebemos que a capital de Svaneti ainda é uma aldeia agrícola em que as inversões do setor turístico mal estão começando a chegar: ruas cheias de lama e buracos, e assim que você sai da estrada principal precisa desviar de fazendas com cercados para o gado.
No meio das casas se erguem as curiosas torres defensivas de pedra, de origem incerta e com alturas de até 20 metros; não há dúvida de que os habitantes deste vale foram muito belicosos pois, em vez de fazer obras de defesa para todo o povo, cada família ou clã construía a sua própria. Há fantásticas cordilheiras nevadas em todas as direções, como formando um circo ao redor do vale. Começamos caminhando rio acima e ao sair da aldeia passamos pelo aeroporto.
Como terminal de passageiros há uma espécie de tubo de acrílico dobrado como um gancho com a ponta para cima; talvez tenha ganho algum prêmio de arquitetura, mas não parece uma instalação prática nem confortável. Continuamos caminhando até encontrar uma passarela que cruza o rio e a partir daí o caminho começa a subir; após meia hora encontramos uma ponte de ferro novamente sobre o rio. Continuamos subindo por entre bosques de coníferas e logo vemos ao fundo a impressionante montanha que fecha o circo glaciar.
Há bastante neve e começamos a afundar os pés. Ninguém leva galochas, mas os israelenses são precavidos e trouxeram um grande rolo de fita isolante; em poucos minutos estamos todos protegidos com sacos plásticos amarrados ao redor dos tornozelos. Assim continuamos caminhando e depois do meio-dia chegamos à língua do glaciar. Não dá para continuar além sem equipamento: o solo está gelado e intermitentemente ouve-se o estrondo de quedas de pedras. Ficamos um momento contemplando a fascinante paisagem e recuperando o fôlego, mas como sopra um vento bastante frio logo descemos para a floresta em busca de um lugar protegido para comer antes de empreender o caminho de volta.
Pilar enquanto isso passa o dia dando voltas pela aldeia: vendo as estranhas torres defensivas, visitando o museu que tem uma coleção de livros antigos dos povos do vale, cruzes e ícones medievais, passeando pelas ruas cheias de lama… Nos contam que uma companhia aérea oferece voos entre Mestia e Tbilisi; as tarifas são razoáveis, mas não nos decidimos a reservar por vários motivos: para ir à Armênia não é imprescindível voltar por Tbilisi, teríamos que ficar mais dias em Mestia e, sobretudo, não acreditamos de todo que os voos sejam realmente operados.
O jantar é muito alegre com uma companhia tão jovem e cosmopolita; bebemos muito vinho e cerveja e combinamos com Nino uma excursão de 4×4 para o dia seguinte.
Dia 13: Svaneti — Excursão a Ushguli, o vilarejo mais alto da Europa
O preço habitual que os motoristas pedem para ir até Ushguli e voltar é de 200 GEL [VERIFICAR], mas como hoje somos oito os interessados, nos oferecem dois veículos com um pequeno desconto e nos sai a 45 GEL por pessoa. Subimos em um Mitsubishi Pajero e pedimos à moça de Riga que viaje no banco da frente porque é a única que fala russo.
A estrada tem trechos razoáveis e outros em que passar a mais de 10 km/h é um suicídio; mesmo assim podemos dizer que temos sorte porque alguns anos permanece fechada pela neve até junho. Paramos um par de vezes nos lugares mais abertos para jogar bolas de neve e contemplar o soberbo monte Ushba (4.700 m), cuja ascensão é famosa por ser perigosa.
Enquanto subimos, o motorista vai contando em russo à nossa companheira todas as lendas relativas às aldeias que atravessamos e ela nos traduz para o inglês. Algumas são do tipo "Romeu e Julieta" mas a maioria tem mais a ver com Macbeth ou o Rei Lear: emboscadas, traições e massacres de todo tipo.
Demoramos mais de duas horas para chegar a Ushguli, que de seus 2.100 metros se orgulha de ser uma das aldeias permanentemente habitadas mais altas da Europa. Ao nos aproximarmos vemos o resultado de uma avalanche de neve que caiu muito perto das casas.
Ushguli conserva a estrutura das aldeias medievais com suas casas de pedra e suas torres de vigilância, menos bem conservadas do que as de Mestia. É uma aldeia visivelmente muito pobre, mas a paisagem nevada lhe confere um aspecto imponente. Subimos até uma colina que domina a aldeia e chegamos a tempo de entrever a silhueta do monte Shkhara antes que a névoa a apague. Este cume atinge mais de 5.000 metros e é o segundo mais alto de todo o Cáucaso (o primeiro é o Elbrus, na Federação Russa).
Nos aproximamos para ver a antiga igreja de São Jorge, no alto da colina, e aproveitamos a precária proteção do muro do cemitério para comer algo, mas faz frio e aguentamos muito pouco sentados. Emprendemos a volta quando começa a cair chuva com neve e as ruas ficam ainda mais enlameadas por causa dos excrementos das ovelhas, vacas e porcos que perambulam por todos os lados. Uns jovens nos convencem a pagar a entrada de um "museu etnológico"; não é grande coisa, mas passamos algum tempo abrigados vendo o interior de uma casa tradicional repleta de velhos objetos engenhosos.
Subimos nos carros com a roupa encharcada, mas logo depois para de chover e voltamos a ver um céu claro; quando chegamos a Mestia há uma linda luz de entardecer. Tomamos banho no precário banheiro de nossa hospedagem e antes de jantar aceitamos o convite de nosso motorista, que nos espera em sua minúscula loja-bar. Quando chegamos estão sentados com ele nossos companheiros esloveno e português, bebendo o vodka aromatizado com maçã que prepara em casa e que nos parece delicioso apesar de ambos odiarem vodka.
Dia 14: De Mestia a Akhaltsikhe — De volta ao sul
A marshrutka da manhã com destino a Zugdidi passa pontualmente para nos buscar às 6h15. A viagem dura 5 horas, um pouco menos do que na ida porque a obrigatória parada no barzinho é de curta duração. Hoje o sistema georgiano de transportes se mostra muito ágil: em Zugdidi embarcamos rapidamente em outra van que vai para Tbilisi e que nos deixa na encruzilhada de Khashuri (13 GEL); caminhamos um pouco até a outra terminal e embarcamos em um terceiro veículo que nos leva a Akhaltsikhe (6 GEL) [VERIFICAR].
Depois de nos instalarmos no hotel nos conectamos um pouco à internet e depois damos um passeio por Rabati, o bairro antigo. Naquela época conservava casas tradicionais e, coisa raríssima na Geórgia, os restos de uma mesquita e uma madressa. (Hoje a fortaleza de Rabati foi espetacularmente restaurada e se tornou uma das principais atrações do sul da Geórgia, com museu, hotel e instalações turísticas.) O castelo abriga um museu, mas já está fechado e de qualquer modo estamos muito cansados. Recolhemo-nos cedo e recuperamos forças para entrar amanhã na República da Armênia.
Hospedagem e gastronomia em Akhaltsikhe
Há muito poucos hotéis, mas parecem ser suficientes porque em Akhaltsikhe não param muitos viajantes. Optamos pelo Hotel Prestige (50 GEL sem café da manhã) [VERIFICAR]. Em uma rua central encontramos toda a oferta gastronômica da cidade, que se limita a khachapuri em suas diferentes variedades (imeruli, acharuli, kubdari…) e cerveja.
FIM DA PARTE DA GEÓRGIA DO DIÁRIO DE VIAGEM
Podem continuar lendo o diário no fórum Losviajeros, que com a permissão de Luis e Pilar teve o texto e as fotos copiados.
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